
Uma afirmação que seria constatada pelos vermes da sepultura 1369 do Cemitério São João Batista (RJ), após uma espera pelos três dias de velório na antiga sede da Academia Brasileira de Letras (ABL). O banquete dos invertebrados foi servido com a pompa que se aguarda do enterro do primeiro presidente dos imortais. Os rituais incluíram um cortejo de quase cinco quilômetros; olhares de pesar do presidente da República, Afonso Pena; e o esforço de acadêmicos como Olavo Bilac e Euclides da Cunha para carregar o caixão.
Mas assim como Brás Cubas (que, mesmo após ter o cadáver roído pelos vermes, ainda conseguiu escrever suas memórias), Machado de Assis permanece encantando o mundo com seus contos e romances. “Ele conseguiu fazer no século XIX o que muitos no século XXI não conseguem. Uma obra absolutamente simples, mas com um grau de sofisticação capaz de surpreender os críticos”, reconhece o escritor Raimundo Carrero, que já adotou os livros “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas” nas suas oficinas literárias.
Os dois romances, somados a “Quincas Borba”, representam um salto de qualidade na obra de Machado. Segundo o professor da pós-graduação em Letras da UFPE, Anco Márcio Tenório Vieira, a qualidade técnica do escritor se eleva após sua ruptura com o Romantismo. “Diversamente dos românticos, ele constrói uma literatura desvinculada do projeto político de nação. Para ele, uma obra é nacional não por ter palmeiras e índios, mas porque ela revela a cultura de um escritor situado no tempo e no espaço”, explica o professor.
Idéias que resultaram em mudanças no jeito de Machado escrever. “Ele se volta para a forma literária em si, onde o mais importante não é o que se diz, mas como se diz. Privilegiando o objeto estético em si, Machado vai construir obras que se resolvem internamente e não por critérios morais ou de nacionalidade”, observa Anco Márcio, citando o mistério em torno da traição de Capitu, em “Dom Casmurro”.
Inovações que deram a Machado o status de maior escritor do País. “A partir dos anos 1870, Machado já era considerado um grande escritor, aquele que talvez pudesse rivalizar com José de Alencar. Com ‘Memórias Póstumas’, ele se firma como o maior nome da literatura brasileira. Não é à toa que seu nome foi escolhido para presidente da ABL por unanimidade”, diz Anco Márcio, embora reconheça que as idéias do escritor sobre o instinto de nacionalidade só tenham sido acompanhadas devido à atualização estética da década de 1920, que passaram a usar as mesmas fontes literárias de Machado, como Shakespeare e Miguel de Cervantes.
Fonte: Folha PE











