
Apesar da vibração pela boa performance em alguns esportes, pode-se perceber claramente que o Brasil, com seus quase 200 milhões de habitantes, está muito longe de ser uma potencia olímpica. No atletismo e natação, os esportes mais tradicionais, quase nada conseguimos. O desempenho, por exemplo, da Austrália, da Jamaica, da Coréia, países de população infinitamente inferior ao do Brasil e PIBs, também, muito inferiores, é muito melhor do que o nosso. Fica cada vez mais claro que o esporte no Brasil é muito mal administrado, muito mal gerenciado. É evidente que a mídia brasileira chama mais atenção para os esportes que somos melhores, até por uma questão de mercado, entretanto quando analisamos friamente o quadro de medalhas, a verdade se explicita. Somos bons em alguns importantes esportes coletivos, sobretudo nos futebóis e vôleis. Mas no restante nossa atuação é fraca e pontual. Um nadador excepcional nas piscinas (apenas um), alguns muito bons desempenhos no atletismo. E fica quase nisso. No conjunto, se não fossem certos importantes esportes coletivos, passaríamos despercebidos internacionalmente. Em síntese, o Brasil é uma potencia sócio-econômica muito mais importante do que Olímpica.
Ainda assim estamos melhorando, nunca antes tínhamos alcançado um ouro na natação, e agora alcançamos. Na vela, até então, nenhuma equipe feminina tinha conseguido medalha, e agora conseguimos. Mas seria importante acelerar essa melhora, pois temos todas condições para isso. Somos um país multirracial e multicultural com amplas potencialidades para desenvolver todos os tipos de esportes. Por sua vez, a carga tributária é muito alta (nas últimas décadas sempre foi assim), o que significa recursos abundantes nas mãos dos poderes públicos. Então esses últimos teriam obrigação de investir mais nos esportes,entretanto investir de forma organizada e produtiva, procurando pensar no longo prazo Para que é que existe Ministério dos Esportes? Não é só para tentar conseguir trazer para o País Copa do Mundo e Olimpíada. Existe, também, todo um trabalho de formiguinha, que não aparece tanto, mas que precisa ser muito melhor desenvolvido do que vem sendo feito. É aquele trabalho do cotidiano, voltado para produzir atletas, tendo por suporte os colégios, as universidades, as organizações sociais existentes nos bairros, etc. O Estado brasileiro precisa entrar “pra valer” nessa briga pela melhoria do esporte nacional.
O Brasil, a essas alturas, já tem uma iniciativa privada considerada forte, segundo os parâmetros levados em conta em todo o mundo. Os mercados internos e externos induziram muito, nesse últimos tempos, seu crescimento. Se o Estado entrasse com força nessa briga pelo esporte brasileiro a iniciativa privada também entraria, não se tenham dúvidas. São necessários patrocínios, entretanto a iniciativa privada não entra de forma ampla “nessa do esporte” se não sentir o interesse real do governo pelo “setor”. Para o esporte poder progredir precisa da ampliação de sua infraestrutura básica, e essa tarefa cabe ao Estado. À iniciativa privada caberia, basicamente, o patrocínio de atletas ou mesmo de algumas instituições voltadas para o esporte. Mas, repito, o suporte básico para o esporte tem que ser incentivado e, em parte, administrado pelo Estado. Seria ingenuidade pensar diferente. São atividades sem retorno, sem lucro ,ao contrário dos patrocínios, que apresentam lucros, diretos ou indiretos Num país de população jovem, como o Brasil, em que o desemprego é imenso e a violência também, a massificação do esporte poderia representar um fator de peso contra essa desagregação social enorme que existe, sobretudo, na periferia das grandes cidades.
Abelardo Baltar
Fonte: Folha de PE